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Estou de boa quanto a morrer. Assinado, Isadora.

11 de jul de 2012

(Atualização feita 1º de fevereiro em virtude dos acontecimentos envolvendo mortes decorrentes do uso de contrastes em São Paulo - vejam aqui e aqui)

SIM. Estou com muito medo de bater as botas na cadeira do dentista SIM porque em vez do juízo, meus dois sisos estejam me trazendo é o juízo final. E o pior é que se eu não fizer nada, Carnaval que vem tá aí pra eu sair de Ronaldinho Gaúcho. 

Há um quê de emoção em ser itegirl, é verdade. Enquanto você fica entediado de vez em quando com a sua saúde, eu não completo três meses sem correr risco de morte. Como quem corre pra pegar o 434 na BRS certa. O problema dessa vez é a anestesia local pra tirar os sisos e que costuma dar mais reações alérgicas em asmáticos do que a geral, que te apaga. E sabe aquela lógica das 7 vidas do gato? Eu já me arrisquei demais com esses brinquedinhos pra ficar tranquila.
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Quem nunca fez exames mais complexos com contraste ou anestesias não tem ideia do perigo que essas coisas representam pra pessoas alérgicas, e aí, parabéns pra você, mas a vingança é justa, Deus é um prato que se come frio e em terra de cego todo mundo fica velho um dia e se fode. O perigo é tão concreto que nas vezes em que precisei me submeter ao uso de contrastes e anestesias tive que assinar um papel dizendo que TUDO BEM SE EU MORRER, ESTOU CIENTE DE QUE É UMA POSSIBILIDADE E NÃO VOU FICAR #CHATIADA E NEM NINGUÉM VAI PODER PROCESSAR VOCÊ, CARO MÉDICO, ASSINADO ISADORA MARINHO, TRANQUILAÇA, TAMOS AÊ.

A 1ª assinatura
Para diagnosticar minha enxaqueca (quando eu achava que estava com esclerose múltipla, lembra), tive que fazer uma ressonância magnética do crânio. Antes do exame, que foi de longe a coisa mais desagradável pela qual já passei, tive que assinar no guichê do Lab's um termo de respnsabilidade dizendo que eu estava de boa quanto à possibilidade de sofrer uma reação alérgica com o contraste e isso "evoluir para óbito".

Fiquei pensativa. Era a primeira vez que eu ouvia falar disso. O recepcionista me deixou "à vontade" para "levar o tempo que precisasse" pra ler o termo "com calma" e assinar. E frisou que eu não era obrigada a fazer uso do contraste, embora a indicação do exame - a infame E.M. - necessitasse dele pra confirmação de diagnóstico. Falei qualquer coisa com meu pai. Essas coisas que você diz pra se tranquilizar a pessoa. Tipo "posso morrer lá dentro, ok" ou algo assim

e... assinei.

Quando já estava com a guia na veia, esperando pra entrar na sala de exame, o médico veio perguntar se realmente estava valendo a minha assinatura, se eu tinha assinado de forma consciente. Por que, você sabe, "existe a possibilidade de sofrer reações como choque anafilático" e tal. Com alérgicos, a atenção geralmente é redobrada.
- Eu posso não permitir o contraste, então?
- Pode.
- Mas o exame vai conseguir diagnosticar o que eu tenho?
- Acho difícil.
- Então eu não tenho muita escolha, né?
- A decisão é sua.
- Costuma dar muito problema?
- Depende da pessoa.
 - (Me sentindo Alice conversando com a lagarta do narguilé) Vamos fazer com.

Véi, na boa véi, fala alguma coisa que faça sentido

Então entrei numa câmara e a única coisa que eu conseguia pensar era “Sim, estou de boa quanto ao fato de correr risco de morrer aqui dentro”. Fiquei relativamente calma quanto a isso, até.

- (Deitada na bandeja, que entrava num tubo claustrofóbico) Ô moça.
- Oi.
- É comum pessoas terem peripaques aqui dentro, é?
- Não pensa nisso. Qualquer coisa era só apertar o botão.
“Como diabos vou conseguir apertar um botão no meio de um peripaque?"
- Ô moça.
- Sim.
- Eu tenho que ficar alerta pra algum sintoma específico?
- Se você se sentir mal, é só apertar o botão.
- Ah, sim, entendi.
"Bom que se eu morrer eu já vou me acostumando ao caixão".

Véi, na boa véi, se der peripaque aqui dentro fudeu

O exame é como estar dentro de uma banheira de 40cm de largura e 1,55m de comprimento com 7 gnomos fazendo obra. Isso por 50 minutos. Era tanto barulho que na hora em que senti o contraste sendo injetado, lá pra metade do exame, desejei ser acometida por uma reação alérgica que me deixasse surda pelas próximas 2 horas. Mas ficou tudo bem. E o final vocês já sabem. Era só enxaqueca.

A 2ª assinatura
Quando minha gastrite ainda não havia sido diagnosticada, meus sintomas eram muitos e os clínicos não chegavam à conclusão alguma. Um dia, cerca de 1 semana antes de fazer a endoscopia, fui parar no Copa D’Or com muita dor abdominal, por todos os lados, do útero às costas. Foi o dia em que eu recusei sair com o rapaz do WhatsApp. A médica de plantão, mais uma vez, me falou sobre o risco do contraste da tomografia que eu teria que fazer e eu, tranqüila, já tarimbada na arte de assinar papéis dizendo estar ok com a possibilidade de morrer durante um exame, assinei o termo e entrei na câmara. No meio do exame o médico, incrivelmente charmoso, veio até mim.

- Quão alérgica você é (ele tinha visto na minha ficha)?
- Não sei... eu tenho rinite de vez em quando.
- Quando foi sua última crise?
- Ontem.
- Ok. O exame acabou.
- Não vai usar constraste?
- Não.

Fui me trocar na cabine. Deixei a porta encostada, afinal, era jogo rápido, estava de vestido. Ele abriu a porta e me pegou de sutiã e calcinha. Ficou em dúvida por 3 segundos se devia se retirar ou não, mas deve ter lembrado que era médico e que não deveria se importar com essas coisas.
- Oi. Então, eu tava pensando aqui...
(OPA! Será, gente?)

 Véi, na boa véi, tu é gato mas não decide minha vida nas coxa não vai

- Você já fez uso de contraste?
- (arrasada) Já.
- Em tomografia?
- (who cares) Sim.
- E aconteceu algo?
- (jura que o assunto ainda é esse?) Nada.
Via-se que ele passava por um dilema. Escolha de Sofia. A escola de medicina não prepara o profissional para momentos assim. Quis ajudar.
- É o contraste, né? Você tá em dúvida.
- (falando como se estivesse desabafando sobre casar, comprar uma bicicleta ou abir um negócio) Pois é, achei um divertículo sem inflamação no duodeno e dois microcálculos no seu rim direito e queria ver se pode ter um terceiro no caminho de saída que justificasse sua dor, mas precisaria de constraste.
- Divertículo no duodeno? Que isso??? Cálculo? No meu rim? Também? Puta merda!
- Mas eles estão paradinhos, não justificam a dor não. Vamos repetir então, com constraste? To te esperando.

Ele sai e eu pego o avental bufando coisas sobre meu rim. Viro e ele ta parado na porta.

-  Por curiosidade, foi qual exame que você fez?
- Ahm, do crânio. Diagnosticou minha enxaqueca.
- Mas foi tomografia?
- Foi.
- Hum.
- IH. NÃO! Foi ressonância. Perdão, confundi!
- Ah, tá. Agora faz sentido. O exame acabou.
- Mas... Por quê? Tem diferença?
- Muitas. São contrastes totalmente diferentes. O da tomografia costuma dar mais problema e eu não quero correr esse risco.

E essa é a história da minha dor que nenhum exame, até hoje, conseguiu detectar. Só que esse papel... o da tomografia com contraste de iodo... eu continuo tendo um pouco de receio de assinar. Nessa ocasião, a dor foi passando ao longo dos dias. E costuma me visitar de vez em quando, quando eu me alimento mal.

P.S. O tal do divertículo no duodeno é uma parada bem mais grave do que eu imaginava. Em suma, eu desafio a morte cada vez que como feijão, milho, uvas ou engulo sementes por acidente. Mas fica pra outro post.

A 3ª assinatura
O próximo passo para descobrir essa dor foi fazer uma endoscopia. Fui numa médica picona indicada pelo meu médico picão (bons tempos de plano de saúde das Organizações Globo). A anestesista veio conversar comigo antes do procedimento. Seria anestesia geral e eu já saí explanando minhas ites, disse que era super alérgica e perguntei logo se podia ter reação. Ela, deleitada com a possiblidade de um agito na rotina, disse sorrindo: “Aaah... Alérgicos são sempre imprevisíííveis. Não posso te prometer naaaada, mas posso te garantir que vou fazer uma combinação que ofereça menos risco. Vamos torcer!”. Então eu entrei no centro cirúrgico pensando “Vamos torcer, vamos torcer pra Isadora não morrer, tralalalá” pessoa bota eletrodos no meu pulso “tralálálá, vamos torcer, tralalá”.

- (Médica picona) E aí, Isadora, preparada?
- (Deitada, de touca, avental, cheia de fios enrolados em mim e querendo ser lembrada postumamente como uma pessoa bem humorada) Aham! Olha gente, eu vou fazer endoscopia, hein, nada de amputar a minha perna por engano!

SILÊNCIO.

- (Médica séria ) Que história é essa?
- Ahm... Haha! Uma piada...
- (Muito séria com o tubo de borracha na mão) De onde que você tirou isso?
- (inventando nos 30) Ahhh, é que eu assisto, haha, muitos seriados médicos e outro dia eu vi um em que... em que... amputavam a perna do paciente em vez de...
- (seca) Nossa, você deve ver os piores que têm no "mercado".
- (Anestesista) Isadora, conte de 10 até 0 pra mim.

Bom humor passou lá pelo aterro e nem tchau deu.

 “Gulp"
- 10, 9...
PUM.
Acordei o que pareceu ser 2 segundos depois (na verdade foram 40 minutos) com minha mãe gritando e eu já no quarto.

- Olha só, Isadora, ela não achou nada no exame e ainda veio me perguntar se você não poderia estar inventando os sintomas, que é pra te levar numa terapia porque você disse lá dentro pra não amputarem sua perna e ela...

- (completamente grogue) QUÊIN?!? POURR...

- Isadora, a mulher tava insinuando que você era maluca, entendeu? Olha só, já tá na idade de criar juízo.

- (fazendo esforço descomunal pra articular) MÁ...ERUA UBA PIADA...!

Mal sabia eu. Que o juízo viria atrás de mim. Dois sisos. Tortos. DOIS.

CONTINUA...
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8 comentários:

Laura disse...

Quero saber a continuação!!!!!!

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Aguardando a continuação rsrs

Diogo

Maíra disse...

Vc e seu grande talento de transformar o desesperador em cômico.
Aguardo ansiosa o desfecho. ;-)

Beijoca.

Vanessa disse...

Sensacional!!!!

Lucilene Borges disse...

AHAHAHAHAHAHHAHAHAHHAHA
Isaa!!!! To rindo MTOO! Cara, só vc!! hahhaha
Mto bom!!
To aguardando a continuação! rsrs

Uirá Felipe disse...

eu queria só curtir! comentar da trabalho e eu nao queria trabalhar agora...

brincadeira. Adoro trabalhar. E não sou bipolar. Só um pouco aleatório. .. cara sem noção, adoro demais sempre que passeio em teus escritos, sejam la de qual natureza forem. Que saudade de ler blogs, de ter internet... de escrever poesias... =)

e do teatro tb muita saudade... nossa que mega devaneio meu comentario... vixi, fikei até com vergonha. Vou então terminar reforçando o qual gostosa é essa leitura... bjs

Uirá Felipe disse...

quis dizer o quão, O QUÃO, e não o qual, gostosa é a leitura e tals!

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