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Como perdi o dinheiro, a dignidade e outros supérfluos no Chile

4 de jun de 2012


Não é que seja um órgão ou coisa tipo sangue, mas dignidade é algo que quando você perde dá dor, enjoo, formigamento, pressão baixa e mais uma porção de ziquezeira. Antes de retomar as suas doenças favoritas, vamos a mais uma história constrangedora sobre mim cuja divulgação ainda não sei se me constrange - vamos ver quando vocês começarem a comentar.

29 de fevereiro
Aeroporto Internacional Arturo Benitez, Santiago do Chile.
Voo às 8h25 com destino ao Rio de Janeiro e conexão em Montevideu.

[7h05. Check-in]
ATENDENTE DA PLUNA ESNOBE: São US$ 36 para despachar a mala. Você pode pagar ali ao lado.

Olho pra ela sem entender, olhos arregalados. Turbilhão de pensamentos. Não me mexo.

"Claro", penso.

"Eu não sairia impune de tal ousadia".

PLUNA ESNOBE FALANDO DEVAGAR: Aceita tarjetas de crédito e dólares, aqui al lado.

EU DEPOIS DE LONGA PAUSA: Yo... no tengo... nada.

[Bolha de constrangimento no tempo]

ESNOBE COM CARA DE DESCONFIANÇA: Nada? Mas você tem que pagar, do contrário, perde o voo.

EU RINDO DE NERVOSO: Se eu tenho US$ 4, é muito... Não sobrou nada...

Outra atendente se aproxima. A esnobe fala em chileno com ela. "Ella no tiene la plata". A outra pergunta meu destino. Eu respondo "BRASIL" e ela me olha com pena. Genuína.

ESNOBE MAIS DESCONFIADA AINDA: Nós cobramos essa taxa desde 2010, você não sabia?

EU: Chica, olha meu passaporte, é a primeira vez que eu viajo pra fora do Brasil!

A OUTRA faz mais cara de pena ainda. Silêncio sepulcral. Ela fala em chileno bem rápido algo sobre conversar com o supervisor.

ESNOBE CHEIA DE VERGONHA ALHEIA: Vou falar com meu supervisor.

[29 dias antes, no Facepapo]



Do outro lado do pc, tento entender como gastei R$ 700 em uma semana. Remexo as bolsas em busca dos recibos e comprovantes de débito. Compras pequenas, besteirinhas, 3.000 pesos aqui, cappuccino aqui, livro ali, taças de sorvete no Empório de La Rosa, remédio...


[7h15. Check-in]

ESNOBE VOLTANDO: Olha, meu supervisor falou que não pode fazer nada. Você precisa pagar, do contrário vão te segurar na conexão em Montevideu. Eles são bem rígidos com isso lá. Você não conhece ninguém aqui que possa trazer dinheiro pra você?

Olho pra baixo. Na velocidade da luz passam as não-possibilidades pela minha cabeça. Pessoas de confiança em Santiago que poderiam me ajudar mas que agora estão espalhadas pelo mundo: uma na Tailândia, outra para o Peru, outras já no Brasil e o resto no sul do Chile. Acredito ter US$ 10 no Visa Travel Money, a última mixaria que tentei guardar para comprar um chocolate no Duty Free. Fora isso, nem um centavo. Os últimos foram gastos pra chegar até o aeroporto - de ônibus. Não tenho para onde ir; não tenho como fazer uma ligação porque estou sem aparelho e tampouco decorei qualquer número chileno; se perder o voo, não terei como comprar outro.

EU C-O-M-P-L-E-T-A-M-E-N-T-E APALERMADA: Chica, mira, não tem ninguém pra me ajudar. Que hago yo? Me diz lo que puedo hacer porque no sé, no puedo pensar, no tengo ni idea.

A OUTRA MUITO DESCONFIADA: Por que o seu voo é pra Argentina se seu destino final é Brasil?

EU: Eu tinha comprado minha passagem de volta da Argentina porque era meu plano passar os últimos dias da viagem lá (percebendo o gancho) mas meu dinheiro acabou aqui no Chile e não tive como ir.

A ESNOBE DÁ UM SORRISINHO SARCÁSTICO E RESMUNGA, EM CHILENO VELOCIDADE 5
5, MAS BEM BAIXINHO, COMO É TOTALMENTE ABSURDO IR PARA O PAÍS DOS OUTROS SEM DINHEIRO O SUFICIENTE.

ESNOBE INCRÉDULA: Mas você não tem NENHUM cartão de crédito?

Olho prum compartimento vazio da minha carteira que estava aberta sobre o balcão e dou um suspiro.


[24 dias antes, no Facepapo]



[7h25. Check-in]

EU: No. No tengo tarjeta.

ESNOBE MUITO CONSTRANGIDA: Lo siento.

OUTRA AGONIADA: É que se ela deixar você passar, vai ter que pagar do bolso dela, entende?

Ambas cortam contato visual. Cortam possíveis negociações. Cortam minha cara.

Cambaleio de costas, saio do guichê. Minha bochecha começa a formigar.

É medo.

Caí em mim.

Eu não tenho dinheiro, não tenho ninguém e estou presa em outro país.

Com a minha habilidade recém-adquirida de identificar brasileiros visualmente, começo a caminhar por entre as pessoas no saguão em busca deles, afinal, estarão mais suscetíveis a emprestar TRINTA E SEIS DÓLARES A UMA COMPLETA ESTRANHA.

[7h30. Saguão do aeroporto]
Vejo que terei que abrir mão da pouca dignidade que me resta.  Certas coisas não cabem num blog, minha gente. Mas devo dizer que deixei não só minhas economias no Chile, como também um pouco da minha dignidade.

[7h36. Entrada do embarque]
Um grupo de uns 15 homens relativamente jovens, todos com o mesmo terno escuro, estão reunidos. Muita gente tirando foto, parecem familiares. Começo a andar no meio daquela gente, meio fora de sintonia, ainda sem acreditar muito no que estou prestes a fazer. Respiro, escolho um dos rapazes, um meio baixinho, moreno, franzino em comparação à maioria dos colegas, me ponho na frente dele e, olhando para baixo, começo.
EU - Permiso...

JOVEM DE TERNO PRETO ENTENDENDO TUDO ERRADO E ME DANDO PASSAGEM - Sí.
EU OLHANDO NOS OLHOS DELE - Não, não. Quero falar com você. Por favor, qual o seu nome?

TERNO NEGRO - Paulo.

EU - Ok, Paulo, eu sou Isadora e me sinto péssima de estar fazendo isso. Mas não tenho alternativa. Eu estou voltando pro Brasil e acabei de saber que tenho que pagar uma taxa pra despachar bagagem.

[Pausa. Engulo o tremelique na voz que quase saiu]

- E não tenho dinheiro.

PAULO - Ih...

EU - Então eu preciso de dinheiro. Entendeu? Você pode me dar?

PAULO - Quanto? Eu tenho 100 dolares aqui, disseram que eu poderia precisar no Peru.

EU ESPANTADA COM A RAPIDEZ DA COISA - Ahn... São 36 dólares, na verdade. (Crise de consciência, afinal, não pode ser tão fácil assim. E tem uma coisa de ingenuidade nos olhos desse rapaz que não me deixam prosseguir) Mas olha! Eu tenho alguns trocados aqui no meu cartão de viagem, então talvez eu precise de menos!

PAULO TIRANDO A PLATA DO BOLSO - Está bem. Vê quanto você vai precisar e me diz.

EU INCRÉDULA DA ESTRELA - Sé-sé-rio?

TERNO NEGRO SORRINDO - Sério, sem problemas!

EU PULANDO NO PESCOÇO DO PAULO - Gracias, gracias, gracias, Paulo, muchas gracias, Paulo!

Saio correndo pelo saguão com a mochila batendo nas costas e a mala capotando e passo pelo guichê gritando "UN CHICO VA A ME PRESTAR!" e jogando os braços pra cima de Ayrton Senna "AÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ!!!!!" sob os olhares de reprovação das atendentes da Pluna.

Vamos lá, contei umas 5 tentativas de saque. Eu não sabia quanto ainda restava no meu Visa Travel Money e, por isso, tinha que chutar valores. Até que, quando eu acertei o valor, não pude sacá-lo. Como eram cobrados US$ 6 de tarifa, o restante era muito baixo para ser sacado.

Voltei para falar com o Paulo que precisaria de todos os 36 dólares. Fui ensaiando um agradecimento em espanhol correto e convites para ir ao Rio, diria que pagaria um jantar de US$ 36 pra ele na orla de Ipanema, o levaria cadê ele nos lugares que os chilenos realmente curtem no Rio cadê Paulo e apresentaria à caipirinha de verdade e se fosse no inverno gente eu indicaria algumas cidades da serra, se ele curtisse natureza por que que esvaziou o saguão eu indicaria Ilha Grande mas se a ideia fosse conhecer gente rica e bonita ele não está aqui.

Ele...
não...
Está.
Mais.
Aqui???????????????????????????????????

EU OLHANDO AO REDOR GRITANDO COM OS OLHOS:

"PAULO?!?!?!?"

ABORDANDO JOVEM DE TERNO NEGRO 2: Oi, onde está o Paulo?

TERNO NEGRO 2 APONTANDO PARA O EMBARQUE DE FORMA DISPLISCENTE: Ya se fue.

Corro para a entrada do embarque e disputo espaço com velhas e pessoas gordas plantadas na porta acenando para os jovens de terno negro que somem aos poucos no final do corredor. Não o localizo. Na ponta dos pés, olhando por cima da cabeça das pessoas, pergunto baixinho "Paulo?!?!". Meus olhos marejam. Estico uma mão tensa no ar: Gritos de "Adiooos", "Boa Viagem", "Te amo, hijito" subitamente são abafados por um

- NÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO PAULOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!

É, ele embarcou. Meu rosto volta a formigar, água que quer sair. Vou caminhando pra trás, com os olhos marejados, respiro fundo pra nada daquela merda escorrer. Eu não choro em público. Muito menos no país dos outros. De repente percebo que todos me olham. Uma mão toca meu ombro.

DONA COTINHA COM UMA AMIGA DO LADO FAZENDO QUE ENTENDEU TUDO: É seu namorado, né, hijita?

EU RESPIRANDO FUNDO. QUALQUER DESATENÇÃO PODE SER A GOTA D´ÁGUA: Não. Eu não o conheço. Ele. Ia. Me. Emprestar. Dinheiro. Porque eu. Não sabia. Não sabia. Mesmo. Que ia ter que. Pagar. Pra despachar a mala.

COTINHA: De onde você é?

EU: Brasil.

Já era. 40 lágrimas caem ao mesmo tempo: 20 de patriotismo e 20 de culpa por estar envergonhando meu país. 

AMIGA DA COTINHA: De quanto você precisa?

EU CONTENDO O SOLUÇO E A ESPERANÇA: 60 mil pesos.

COTINHA E AMIGA NERVOSAS: Ih, é, dá não, muito dinheiro, ahn ahn. Isso é muita grana.

EU A 5 SEGUNDOS DE COMEÇAR A CHORAR: E-eu sei.

COTINHA E FRIEND: Sinto muito, hijita, mas não podemos ajudá-la e vai ser difícil conseguir tanto dinheiro assim aqui.

E lágrimas escorrem sem fim.

EU CHAFURDANDO NA AUTOPIEDADE: E-eu s-só quero voltaaaaar.... pra mi-mi-minha caaa-ca-ca-saaa! Sa-sabe?? Só-só isso!! Pro me-meu pa-pa-país... Eu que-que-ro ir embora.

Senhoras me olham com cara de pena, com a mão sobre o coração, imaginando minha casa na árvore no Brasil e a saudade que eu devo estar sentindo do meu mico de estimação.

"IÇADÔRA?!"

Olho para trás. É a atendente fofa da Pluna.

- Vamos embarcar você, me acompanhe por favor.

xoxoxoxoxo

[No check-in]

ESNOBE DESGOSTOSA: Um funcionário da Pluna entrará em contato com você no Rio para que você pague o despache, ok?

EU: OKAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAY :-))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))

A FOFA QUE EU TENHO CERTEZA DE QUE FOI QUEM MEXEU OS PAUZINHOS PRA ME AJUDAR: Mas pague, por favor, do contrário, esse dinheiro será descontado de nós!

EU: CLAROOOOOOOOOOOOOOOOOOOO CHICAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA :-)))))))))))))))))

Quando passo pelo embarque, pergunto para a imigração aonde estavam indo "os rapazes de terno preto com aquele monte de família chorando no saguão".

- Para o Peru. São missionários.

[Epílogo]
O final feliz dessa história é: passei pelo Duty Free, comprei meu chocolate chileno preferido com as últimas merrecas do Visa Travel Money, tive um ótimo voo de escala para Montevidéu, um ótimo voo para Buenos Aires, um ótimo voo de volta para Montevidéu, (todos os voos internacionais da Pluna, me parecem, fazem escala no Uruguai) recebi olhares confusos dos comissários de bordo que estavam me vendo voando pela segunda vez para Montevidéu, e antes de embarcarmos para o Rio o avião quebrou e levou duas horas pra ser consertado no hangar sob os olhares de apreensão dos passageiros. Assim foi meu retorno: 16 horas só com chocolate Sahne-Nuss na barriga, duas das quais ele ficou revirando no estômago e nas tripas devido ao insistente pensamento de que estava num avião que tinha acabado de quebrar e que poderia cair a qualquer momento. Ao chegar no Rio ninguém da Pluna me procurou e o meu córtex pesa um pouco mais para o lado direito de culpa ao imaginar aquela fofíssima atendente olhando o contracheque descontado dela.
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10 comentários:

Patrícia Capella disse...

Isa, na moral. Sensacional HAHAHAHA
Sei q n deveria rir pq foi uma situação mega tensa mas a forma como vc conta eh sensacional.

Beijos!

Unknown disse...

Que situação hein!!! o.O
To de cara aqui.. e ainda não pagou a parada rsrs
ae agradeça mt a Deus!!

bjs
Diogo

Isadora Marinho disse...

Gente, eles ficaram com meus telefones todos, meu endereço, meu email, meu nome completo... A única explicação é terem perdoado a dívida!

Laura disse...

Adoro a forma como você escreve, Isadora! Por favor continue o blog :-)
E quanto a sua viagem, não se preocupe, viagens muito certinhas não tem a menor graça kkkkkkkkk
A melhor parte é sempre contar as desgraças depois rsrsrsrs
Beijos

Unknown disse...

uauhauhauha
perdoado a dívida foi ótimo!!

Diogo

Gabriel Chequer disse...

Mto engraçado porém constrangedor.
Mas fica pra vida toda né? Tem q ter história assim pra contar!
Adorei! rsrs

Lucas Conrado disse...

Essa história fez qualquer aventura minha no Chile ser chata e normal...

Maíra disse...

Caralho Isa... Como assim, Isa? Porra, Isa!!!!!!

rsrs

Conselho de amiga, um cartão internacional, pode ter limite baixo (tipo uns R$500,00) na bolsa, para emergências APENAS. Numa dessas, paga um excesso de bagagem, ou uma tarifa de complemento pra outro vôo, ou uma diária e uma refeição...

Poohan Isa!!!

P.S. adoro seu estilo de escrita. :-)

Priscila Fontenelle disse...

Amiga, da próxima vez foca em identificar no saguão americanos, ingleses, franceses! Seria uma merreca pra eles!!

Sensacional! Sofri com você, bb! mas ri abstante tb, tá? ;p

Te amo!

luciana* disse...

uau, que situação!

você tinha muita bagagem? porque nesse ano voltei de santiago pela pluna, e não cobraram passagem (estava com uma mochila de 70 litros e 12 quilos nela).

antes de você ter ido pedir o dinheiro para o estranho, podia ter blefado e dito que tentaria a sorte em mvd. mas entendo que na hora do pânico nada se passa pela cabeça.

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