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O pior médico do mundo e o pior mês da minha vida

11 de jan de 2012

Olha, eu acho antiética essa coisa de falar mal de médico. Ainda mais na internet. Mas esse é um caso à parte – os moralistas que me desculpem. O cara é um irresponsável, insensível. E já aprontou duas vezes comigo. Então falo mesmo. Até para alertar as pessoas.
Dr. Google é o nome dele.
Dr. Google já me deu duas sentenças de morte.
Ambas lentas, dolorosas...
E ERRADAS!

A esclerosa múltipla
Há cerca de duas semanas eu sofria de espasmos musculares e formigamentos pelo corpo inteiro. Os lugares mais insuspeitos tremelicavam. Além disso, uma fraqueza absurda tomava conta do meu braço em diversas horas do dia, e se eu tentava estica-lo segurando alguma coisa, um copo que fosse, era um show de Parkinson. Os sintomas vinham piorando e eu suspeitava que fosse neurológico. Finalmente, num sábado qualquer, estava eu aborrecida quando PERDI A VISÃO. Primeiro foi a visão periférica e depois a noção do que eu via como um todo. Como se meu cérebro não estivesse mais decodificando as imagens, apenas as partes em que eu focava. O resto era confusão. Para completar, estrelinhas brilhantes "choviam" por trás dos meus olhos e ondinhas parecidas com as de água no parabrisa se espalhavam por todo meu campo visual. Pronto. A realidade tinha se transformado em um clipe ruim da MTV sintonizada em UHF.
“Então é assim”, pensei. “Acabou. Estou morrendo. Vou sentir falta disso aqui”
Meu ascendente em Virgem, completamente histérico, interrompeu meu choro silencioso e gritou “Se você tá morrendo, bitch, VAI TOMAR BANHO!”. Pulei da cama. Virgem tinha razão. Afinal, ninguém quer causar uma péssima primeira impressão na enfermeira que pode vir a cuidar de você nos próximos 5 anos em que estiver em coma. E Deus sabe que dar entrada numa emergência com a mesma calcinha de 28 horas atrás não cativa ninguém.
Meia hora depois (sim, eu tomei banho praticamente cega), os sintomas desapareceram... mas retornaram no dia seguinte. Durante o debate Dilma X Serra. Alguma ironia do Serra começou a me dar nos nervos e a cara dele começou a deformar.
“Então é isso”, pensei. “Acabou. Estou morrendo. Vou sentir falta disso aqui”
Fiquei no quarto escuro e tentei manter a calma. Comecei a sentir dor de cabeça. Virgem gritou de novo. "Se você tá morrendo, bitch, que pelo menos saiba do quê!". Recorri ao Dr. Google. Joguei os sintomas num daqueles "symptons checkers" e as primeiras ocorrências eram cefaléia (duh!), glaucoma (com tremedeiras no corpo? Really?) e descolamento de retina (não, não levei nenhuma bolada recentemente no recreio). Sobraram, então, os três cavaleiros do apocalipse:
Aneurisma, esclerose múltipla e tumor.
Dr. Google disse que dos três, o que mais encaixava com meu quadro era esclerose múltipla, aquela doença horrorosa incurável que vai atrofiando o corpo até matar. Aparece a partir dos 20 anos, maior incidência em mulheres brancas, não era hereditária, primeiros sintomas são formigamento e fraqueza muscular seguido de alterações visuais e auditivas, ou seja, Dr. Google sambava na minha cara com evidência atrás de evidência.
“Então é isso”, pensei. “Acabou. Estou morrendo. Vou sentir falta disso aqui”
Fui ao primeiro neurologista disponível, desses de que te atendem em 5 minutos. Contei dos sintomas, ele martelou todas as minhas articulações e disse que aparentemente estava tudo normal, mas que precisaria de uma ressonância pra saber o que estava acontecendo. Perguntei da Esclerose. Ele disse que achava improvável. Mas na guia da Ressonância Magnética, na parte de "Justificativa", ela estava lá!
"Suspeita de E.M."
- (olhando nos meus olhos pela primeira vez) Não fica assustada com esse E.M. aí não. É que o plano não libera o exame a menos que tenha uma indicação grave.
- Mas o Dr. Google também diss-
- Minha filha, não fica pesquisando doença no Google. Você é jornalista, né? Tenho um monte de paciente jornalista. Tudo com problema de stress. Ganha pouco, trabalha muito, o cérebro colapsa.

O angioma venoso
Reza a lenda que meu pai chegou em casa pálido com o laudo da Ressonância e, sob a direção do Jayme Monjardim, olhou para a minha mãe, fez uma pausa e disse:
- Deu uma coisa.
Eles abriram e estava lá, no meio de 42 imagens do meu cérebro, a indicação de um angioma venoso. Minha mãe recorreu ao Dr. Google para saber o que era aquilo e as notícias não eram boas.

Clica porque é óbvio que você não vai enxergar daí.

Me telefonou.
- Olha, não fica nervosa. Mas deu uma coisa no seu exame.
- O quê?
- Um angioma venoso. Parece que não se opera. Seu pai já marcou consulta com o médico indicado pelo Niemeyer. Não olha na internet pra não ficar nervosa!
Mas ninguém ia me impedir de ouvir a verdade do Dr. Google! E quando eu o fiz... era sério. E pior, fazia sentido! As vezes em que havia perdido a visão e estrelinhas choveram por trás dos meus olhos era o angioma sangrando! O prognóstico era péssimo. Ele era inoperável pelos riscos que envolvia - geralmente o paciente convivia com ele, rezando para ele não sangrasse e evitando esportes radicais, ficar de cabeça para baixo e andar de montanha-russa, ou então arriscava operar sabendo que poderia acordar com as habilidades motoras ou da fala comprometidas.
“Então é isso”, pensei. “Estou morrendo. Acabou. E nem à Disney mais vou poder ir.”
Chorava todas as noites achando que não iria acordar. Abri um doc de Word para dizer para quem iria cada coisa minha. Livros, determinadas peças de roupa, lembranças de infância, CDs. Estava aceitando meu destino. Meus pais não demonstravam, mas depois me diriam que estavam em absoluto pânico.
Foram os dias mais longos da minha vida (mas viriam outros, afinal, itegirl que é itegirl passa por situações de pseudo-quase-morte pelo menos uma vez ao ano).

Dr. Google X Dr. do governador
Chegou o dia da minha consulta com o médico que fazia a triagem para o Niemeyer, já que este não atende mais pessoas, apenas as opera. Itepeople conhece alguns especialistas de nome e esse neurocirurgião é um deles. Atestado Dig Din Sou Foda, o cara é o mais famoso do Brasil. E lá foi a família de classe média levar a camponesa do nobre coração para o médico cuja consulta custava um salário mínimo.
Era um vovô de mais de 70 anos que, mais tarde, fui descobrir que era o médico do Sérgio Cabral.
Contei meus sintomas e antes que eu terminasse, ele profetizou:
- Enxaqueca.
- (Ele TEM QUE estar de sacanagem! Ele acha que eu não saberia se fosse enxaqueca? Até testamento eu fiz, meu amigo!) Ahm, enxaqueca, acho dfíci. Não tive dor. Só uma dorzinha muito leve. Além do mais, a ressonância deu uma coisa.
Ele pegou, folheou as 7 folhas de imagens sem parecer que estava olhando de verdade. Chegou ao final, olhou pra minha cara e disse.
- Mas aqui não tem nada.
- (minha mãe já se adiantando) Tem um angioma!!! Um angioma venoso!!! O Dr. Google disse, é um tumor!
E com toda a paciência do mundo, o Dr. de Verdade explicou que angiomas venosos são comuns e não oferecem risco algum. É apenas uma veia que em vez de sair reta, por exemplo, fez uma curva - mas que funciona perfeitamente. Algumas pessoas tem um na têmpora - e fica bem visível - outras no cérebro... Normal. Diferentemente do angioma ARTERIOVENOSO que, aí sim, era um tumor perigoso, de remoção complicadíssima. Disse que era uma discussão eterna nos congressos de medicina colocar ou não no laudo da Ressonância a presença de angiomas venosos, visto que frequentemente eles causavam esse tipo de mal entendido entre leigos e Dr. Google ainda fazia a festa.
- O que você tem é enxaqueca, minha filha. Só que você só teve a aura por enquanto. Aura é o conjunto de sintomas que precedem a enxaqueca e pode ser qualquer coisa: de tremor no braço até você sentir cheiros que não existem. Para cada pessoa funciona de um jeito.
Todos respiraram aliviados. E eu só conseguia pensar no fato de que Dr. Google tinha feito minha família gastar 600 reais no médico do governador pra diagnosticar uma enxaqueca na itegirl. Ele martelou minhas articulações, mandou eu olhar pra luzinha, fez o exame do Dr. Chapatín completo e, de volta à mesa, perguntou:
- Você passou por problemas recentemente, anda estressada, tem um namorado? Como é que tão as coisas com ele?
Afundei na cadeira. Pelo menos o Dr. Google não me fazia perguntas constrangedoras na frente dos meus pais. O namoro tinha acabado e eu não falava sobre o assunto em casa. Ia falar com o médico do governador? Ele, então, começou a divagar.
- Sabe, é muito difícil ser jovem hoje em dia. Na minha época a gente fazia sexo com a menina e ficava morrendo de medo de que aquilo gerasse vida, ou seja, de engravidar ela, de ter um filho inesperado. Hoje em dia a juventude faz sexo com medo de morrer. De pegar doenças horríveis. Já imaginou, uma coisa tão boa e bonita como sexo vir carregada de pavor? São tempos difíceis, eu sei. Jovens muito pressionados. Veja a Dilma, por exemplo. O povo acha que a Dilma é o Lula. E não é! Isso vai dar confusão. Esse país vai se lascar. Tenho mais de 70 anos de vida, já vi de tudo... [continua forever]
“Então é isso”, pensei. “Acabou. Estou morrendo.”
Prescrição: um Rivotril antes de dormir, não vote na Dilma e não fique com medo de transar.
m
m

11 comentários:

Vanessa disse...

hahahahahah só vc. Muito bom. COmo sempre!

Mariana Rozadas disse...

Suspeita de R.E.M. Ou de Y.M.C.A.

Você tá demais! Beijos!

Unknown disse...

Que tenso,apesar de estar engraçado como sempre,fiquei triste por vc :(
bj
Diogo

Pati disse...

Isa,

Senti um misto de tristeza e alegria ao mesmo tempo lendo esse texto pq vc consegue pegar uma situação pesada e bizarra dessas e transformar numa coisa extremamente leve, inteligente e agradável de se ler.

Sensacional, continue com isso aqui bombando. Vou ler sempre!

beijosss,
Pati (Capella) :P

Isadora Marinho disse...

Pati, essa situação foi horrível. Não lembro de ter passado por nada tão punk quanto esse episódio. Aliás, vou até acrescentar no título "O pior mês da minha vida". Hoje eu rio tanto quando conto essa história, mas rio tanto... Até porque só me resta rir e compartilhar com as pessoas pra que elas riam também :-)

Unknown disse...

Falou tudo a Pati ai em cima, conseguir fazer isso que vc faz é para poucos Isadora! E mais ainda você mesmo conseguir rir dessas histórias, fascinante isso!!
Diogo

Maíra disse...

Qnd eu crescer, quero escrever bem assim como vc. E eu digo isso pra poucos(as), viu?? Rs

Graças aos deuses e deusas vc é uma pessoa com uma boa saúde mental, inteligência emocional desenvolvida, pq vou te contar, hein??? Eu já tinha pedido demissão, voltado pra casa da mamãe e ficado de cama tomando sopinha o resto da vida... Jamais ia conseguir contar isso tudo e com bom humor, ainda por cima...


Beijoca

Anônimo disse...

Amiga,
poucas pessoas sabem expressar tão bem esse quadro. Eu mesma não saberia descrever essa situação... Mas posso dizer, e vc sabe bem, que me identifiquei com cada fragmento e cada luzinha e dormência. Não é brincadeira não... Lamentável ter neguinho que ainda acha que é só uma dorzinha de cabeça, mas o modo "light" como vc relata realmente me conforta... um pouco. E cassação pro Dr. Google! - Alê

Anônimo disse...

Vc não sabe o quanto me ajudou!!! O melghor a fazer é pegar os exames e levar direto no médico. Não ficar consultando google porque normalmente nos sentencia a uma morte precoce!!!

Unknown disse...

Muito massa, principalmente o final.

Desconhecido disse...

VC me ajudou muito com seu relato. Ontem peguei o resultado dos meus exames e tenho examente isso e já estava em paranóia lento vários artigos no Dr. Google...PAREI!!!! Agora vou aguardar a minha consulta tranquilamente!! Bjs e obrigada!!

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