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O circo que eu armei para encarar os meus temidos 26 anos

26 de dez de 2011

Resta a minha última meia hora do lado de cá dos 20 e poucos anos e eu começo a pensar. Pois é.

Chegou.

Há anos eu sofro por antecipação com os 26 anos. Afinal, são 26. Supostamente, tudo deveria estar em ordem na sua vida.

Eu já quis ser veterinária pra acabar com o sofrimento dos bichinhos. Neurocirurgiã porque eu me achava tão inteligente que certamente poderia mexer na cabeça dos outros.

Acabei não fazendo nenhuma dessas coisas e, a 30 minutos de completar 26 anos, vejo que antes de se dedicar a uma profissão, qualquer pessoa deve antes se graduar, virar mestre e doutora em uma arte um pouco mais complexa.

Se governar.

Eu imaginava que, aos 26, eu estaria rica, com filhos de comercial de margarina, o emprego perfeito, gatos que não soltassem pêlo, casa de praia e muitas fotos das minhas viagens internacionais.

Três meses antes de completar 26 eu vi que não tinha nada disso. Meus gatos soltam muito pêlo, meu emprego é temporário, margarina não posso mais comer. Viagem internacional? Não fiz umazinha até agora. Casa de praia pra quem, 12kg acima do peso?

O ponto positivo de se chegar aos 26 sem NADA do que você planejava para si é que você se obriga a analisar sua vida e encontrar uma lógica e um sentido para o que lhe restou. Afinal, alguma coisa eu conquistei!

A três meses de completar 26 anos, eu olhei para o que tinha de palpável na minha vida:

Doenças. Doenças idiotas. E médicos dizendo que eu poderia morrer delas a qualquer momento.

A três meses de completar 26 anos, eu constatei que estava tudo errado.

Fiquei puta. Vi que minha vida tinha se transformado em um trem desgovernado. Pra onde eu tava indo? Que paisagem era aquela passando pela janela há anos e que eu não conhecia? Fui bater na cabine pra ver quem era o responsável por aquela merda.

Quando abri a porta vi uma maquinista clandestina, que usava um tapa-olho, falava uma língua do leste europeu e tinha um jeito meio maníaco. Ela era até meio parecida comigo, mas estava visivelmente transtornada. Eu sou meio medrosa, confesso, e a figura dela não ajudava. A mulher estava pregada no painel, com os olhos vidrados no caminho à frente.

Mas depois de muito respirar, vi que ou eu partia pra cima ou voltava para o meu lugar e prosseguia naquela viagem nonsense.

Foi então que travamos uma luta fenomenal pelo controle do trem.

A três meses de completar 26 anos, eu voltei a me governar. E a 15 minutos de completar 26, vejo que fiz um bom trabalho – e em tempo recorde.

Peguei tudo o que eu esperava da minha vida para os 26 anos e tentei concretizar à força. Montar a minha realidade. Colorida do jeito que eu queria, emocionante. O meu show. Um amigo disse uma vez que é plenamente possível montar um Chekhov em duas semanas. Eu iria montar o espetáculo da minha vida em três meses.

Numa manobra circense arriscadíssima, saí de casa e fui morar sozinha. Isso faz três meses e eu não contei pra ninguém – fez parte do meu número de malabarismo manter isso em segredo. Depois, fui em busca de um tratamento que me desse alguma esperança de cura e reversão de problemas de saúde, e todos juntos, de uma vez só. Comecei, então, a domar um leão de três cabeças em corpo de cavalo selvagem. E esse número é, de longe, a coisa mais interessante nesse espetáculo. Não conto com chicotes nem com aros de fogo, apenas com... comida e terapias alternativas. É uma atração à parte.

Foi por causa dela que meu próximo número fez tanto sucesso: o do desaparecimento dos quilos excedentes. Um mágico me colocou numa caixa e cortou 7,5 kg meus em dois meses.

Para a segunda parte do show, farei a mulher bala, e serei colocada dentro de um canhão e atirada a quase 4.000 km. Esse é só em janeiro do ano que vem.

A 4 minutos de completar 26 anos, estou orgulhosa de mim. A maquinista clandestina ainda está aqui, desacordada e com o nariz quebrado de uma de nossas brigas. Com certa frequência ela acorda, agarra minha perna, esbraveja umas palavras em russo e a gente luta de novo. Eu já percebi que ela ficará comigo até o fim dos meus dias. Estamos fadadas a nos aturarmos dentro desse cubículo, lutando eternamente pelo controle do trem.

E é isso, senhores passageiros. Meia-noite, eu acabo de completar 26 anos, me chamo Isadora e serei sua condutora durante esta viagem. Qualquer sacolejada mais forte, basta se segurar onde der. Há uma psicopata comigo nesta cabine mas garanto aos senhores que ela não nos fará mais mal algum. E se fizer, bem... Eu já tenho 26 anos e darei um jeito.

Feliz Ano Novo pra mim.

Você pode morrer.

14 de dez de 2011

Ouvi isso há mais ou menos 3 meses.
E não foi de uma pessoa.
Mas de 4.

Prólogo (ou 25 anos em 25 linhas)

Isadora sempre teve asma e alergia e sempre conviveu com elas. Até um ano atrás.
Conhece a Teoria do Caos? Aquela que diz que "o bater das asas de uma borboleta no Japão pode provocar um furacão em Nova Yok"?
Desde o fim de 2010 minha saúde pode ser resumida por aí.
Se uma pessoa espirra em Niterói, eu pego faringite.
Crises de rinite descontroladas são deflagradas pelo simples ato de acordar ou respirar um pouco mais fundo.
Antialérgico faz o mesmo efeito que um copo d'água. Sinusites me visitam com mais frequência do que meus amigos. Antibióticos em escala industrial, 4 ou 5 vezes no ano.
Em seis meses eu pego mais viroses do que o número de homens até hoje.

Isso porque alguém me prometeu lá atrás que quando eu me tornasse adulta a asma iria embora.
Pois é, a juventude já tá de saída e nada dessa agonia levantar do sofá.
E falando em juventude, começaram a aparecer uma porção de problemas da melhor idade. Tendinite. Fascite na planta dos DOIS pés. Inflamação no joelho... Nada melhorando 100% e eu impossibilitada de tomar remédios pra acelerar a recuperação.
Pois é, porque além de tudo isso, me descobri alérgica, TAMBÉM, a AINES (antiinflamatórios não-esteroidais). Todos os irmãozinhos e primos dos Profenos, Diclofenacos, Dipironas...
Meio comprimido basta para você me confundir com o caçula do Corcunda de Notre Dame.

Mencionei que eu embaleiei também? Fiquei 15 assustadores quilos acima do peso. Desenvolvi enxaqueca. Problemas no intestino.

Foi a minha deixa.

Decidi revisitar especialidades médicas das quais estava afastada há cerca de dez anos. Mesmo tendo tentado de tudo nessas duas décadas, uma voz desesperada gritava dentro de mim que em dez anos algo deve ter mudado! A medicina deve ter inventado algo novo! NÃO É POSSÍVEL!!


Mas minha relação com médicos é igual a de um casamento. Que sempre dá errado. Eles me encantam e me prometem uma vida melhor, a gente sela um compromisso, passa anos, nada acontece, a relação desgasta, eu ligo no meio de uma crise, eles recusam a chamada, vejo que fui traída e vou embora pra nunca mais voltar. Mas, como toda mulher de malandro, acabo voltando. Dessa vez levei 10 anos.

Só que acho que foi a última.

Sabe o que que é? É que por mais fofa e simpática e enferma que eu seja... a medicina que conhecemos... simplesmente...
Não está afim de mim.



Capítulo 1: o pneumologista.

- Basta uma crise sua escapar do controle e você demorar muito pra chegar ao hospital. E nem sempre dá pra reverter, tá? Descontrolada do jeito que sua asma tá... Hoje, você corre riscos seríssimos, pode até morrer numa dessas. Já vi muita gente chegar em parada cardiorrespiratória na emergência por causa de uma crise de asma.

A saída? A mesma de 10 anos atrás. Usar corticóides para o resto da vida.

- Asma e alergia não têm cura. Mas têm tratamento.

E me mandou fazer uma prova de função pulmonar pra ver quão severa era minha asma. O resultado:

- Você não tem asma.

[Silêncio]

- No CARALHO que eu não tenho asma!

- o_O

- O que é que eu tenho, então?

- [Dropando] Bom, vamos acompanhar seu quadro... Mas faz a medicação que eu te passei.

- To indo numa alergista essa semana.Acho que fiquei alérgica a antiinflamatório.

- Alergista é tudo charlatão.

Por orientação dele, troquei minha bombinha fiel que uso desde os 15 por um pó inalante "mais moderno" e descobri, depois de 1 mês e 3 amigdalites seguidas e sem explicação, que o remédio dava FUNGOS na minhas amígdalas. É isso mesmo. O remédio para alergia literalmente mofou minha garganta.

Resumo da ópera:
1 "Você pode morrer a qualquer momento"
1 "Você não tem asma"
0 esperança de cura
0 esperança em outra especialidade
0 remédio útil
Saldo: 1 + 0 + 0 + 0 =1

1 ameaça de morte.

Capítulo 2: a alergista.

Só olhou na minha cara depois que eu fiz um exame de sangue e entreguei na mão dela.

- [bateu o olho no papel e olhou pro lado] Credo!

- Tá ruim, é?

- Pessoas normais tem a IgE (Imunoglobulina E) até 160. A sua é quase 2.000. Você é uma bomba relógio, minha filha. Seu corpo transforma facilmente uma crise alérgica em choque anafilático. Deus que me perdoe, mas você pode morrer até de picada de mosquito. Vacina já! Dois anos no mínimo.

- E se eu te disser que já fiz 3 anos de vacina quando era criança, mais 3 anos quando era adolescente e o único efeito que elas surtiram foi negativo - na conta corrente dos meus pais?

- Não era a MINHA vacina. Olha, esse é o único tratamento que a medicina conhece.

- Eu fui num penumologista que disse-

- Esses caras não sabem nada de alergia.

- Entendi. E essa minha alergia a remédios?

- Você é viciada em antiinflamatório?

- Eu não!!!

- Estranho, porque a gente só fica alérgico a remédios que usa muito.

- Eu sempre tomei 1 antiinflamatório por mês por causa das minhas cólicas. Mas foi receitado pelo meu gineco e ele nunca falou nada sobre o risco de eu contrair alergia!

- Pois é, a medicina ainda é um pouco relapsa com alérgicos.

Resumo da comédia:
1 "Você pode morrer a qualquer momento"
0 esperança em outra especialidade
0 esperança de cura pra alergia antiga
0 esperança de cura pra alergia nova
0 respeito pela medicina relapsa

Saldo: 1 + 0 + 0 + 0 + 0 = 1.

1 ameaça de morte.


Capítulo 3: o astrólogo.

- Nessa parte do seu mapa aqui é que o bicho pega.
- Hum.
- Você está morrendo.
- É, tenho ouvido isso com frequência.
- Calma que é uma morte mais complicada do que a literal.
- Não diga.
- Plutão está entrando no seu signo e ele é o planeta da morte e do renascimento. O lema disso aqui é: "Morra antes que você morra". Ou seja, aceite as mudanças, que não são poucas e nem fáceis, e transforme sua vida antes que o tempo passe.
- Entendo.
- Jogue tudo o que foi até hoje fora. Comece de novo. Você tem meios para isso.
- E minha saúde?
- Seu sistema imunológico é seu ponto fraco. Se alimente bem que vai ficar tudo certo.

Resumo:
1 ameaça de morte metafórica
1 recomendação para se alimentar bem

Saldo: 1 + 1 = 2.

Taí uma conta que faz sentido. 1 ameaça de morte e 1 conselho IDIOTA e ELEMENTAR que, no entanto, nunca foi levado a sério.

Se alimentar bem.

Capítulo 4: a orientadora alimentar

Após 1h30 de entrevista com ela...
[O que você come, qual sua cor favorita, qual seu signo, o que comia quando criança, quais são seus problemas de saúde, qual seu maior medo na vida]

45 minutos de esporro...
[Você é MAAALUUUUUCAAAAA de se encher de queijo e laticínio, essa é a pior comida do mundo pra vocêêêê, aaah, gosta de comer muita massa, é??? TRIGO, MINHA FILHAAAA, pra pessoas alérgicas como vocêêê, confunde o sistema imunológico tooooodo... Aí vai lá e se entope de antialergico e corticoide, né? Você está se ENVENENANDOOOO. E pode morrer! Pode morrer! Se sofre um acidente e vai parar numa emergência, o primeiro intravenoso que colocam aí te faz entrar em choque e a adrenalina que te salvaria reage com essa química toda que tá no seu sangue e sabe o resultado? Sabe o resultado? Morte súbita. Acontece o tempo todo. Mor-te sú-bi-ta. E se quiser ter filho, vai ter uma criança mais doente do que você jamais foi! Passar essa imunoglobulina toda pro feto, fazer um estrago na vida da criança! ]

...E mais duas semanas de espera, recebi uma rotina alimentar cheia de restrições e alimentos exóticos. Uma mudança drástica.
Complicada.
Cheia de detalhes e impedimentos demaaais pro meu gosto.


"Morra antes que você morra".

- Dieta para quem tem câncer de pulmão, tá bom pra você? - ela me disse com uma cara muito séria. - Estamos correndo contra o tempo. Você ainda tem 25, ainda está na idade em que é possível reverter todos esses problemas. Mas a gente precisa correr. Não sobra muito tempo e o trabalho é delicado.

Enquanto ela lia minha nova rotina alimentar eu ia enrugando a testa, arregalando os olhos e fazendo muitos esgares com boca.

Saí de lá com Plutão nos ombros e vou dizer... está pesado pra caralho.

Mas o jogo vai começar. Ele já começou.

"Morra antes que você morra".

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